Não há verdadeiro conhecimento sem o estudo dos clássicos.

No mundo da Astrologia moderna, assume-se todo o ensinamento atual como verdadeiro, sendo que a primeira regra de qualquer investigação é questionar e precisar as fontes, até porque a História é-nos muitas vezes ensinada com erros. Talvez por isso este artigo possa suscitar alguma polémica, não sendo esse o objetivo, mas antes o de estimular a curiosidade e a apetência a um estudo mais aprofundado.

Sobre o Heliocentrismo, qualquer criança sabe dizer que o Sol é o centro do sistema solar, opondo-se ao Geocentrismo, teoria que supostamente vigorou até ao renascimento, mas que veremos neste artigo, não foi mais do que a recuperação de clássico grego com 2.000 anos e recuando um pouco mais, até nos podemos questionar porque é que há 5.000 anos já os egípcios adoravam o Sol?

A ciência moderna atribui a Copérnico no Sec. XVI o primeiro estudo matemático que provava o Heliocentrismo, com o tema a ganhar relevância com o julgamento de Galileu, no Sec. XVII e aprimorado no Sec. XVII por Johannes Keppler. Galileu foi estimulado a prosseguir os seus estudos, pelo seu amigo e cientista, o Cardeal Roberto Bellarmino – que já tinha presidido ao julgamento que proibiu a teoria de Copérnico – e pelo Papa Urbano VIII que se tinha referido a Copérnico e à sua teoria da seguinte forma: "a Igreja não tinha condenado e não condenaria a doutrina de Copérnico como herética, mas apenas como temerária".

Na sequência deste “incentivo” a prosseguir a sua investigação, Galileu viria a escrever “Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo" completado em 1630 e publicado em 1632, onde tornou a defender o sistema Heliocêntrico - obra decisiva no processo da Inquisição, embora o tema já fosse do conhecimento interno da Igreja, 200 anos antes, pelo bispo de Lisieux, Nicolas de Oresme (Sec. XIV), na Normandia.

A História diz-nos que o Heliocentrismo era negado por Aristóteles e por Ptolomeu (a este assunto voltaremos noutro artigo, pois é provavelmente uma interpretação errada a partir do desconhecimento do processo de transmissão deste tipo de conhecimento), mas na realidade esta teoria já era conhecida nesse período, ou Aristóteles não teria escrito o seguinte no século IV a.C.: "No centro, eles [os pitagóricos] dizem, há fogo, e a Terra é uma das estrelas, criando noite e dia pelo seu movimento circular em torno do centro." - Sobre o Céu, Livro Dois, Capítulo 13. Parece então que, alguma informação errada chegou aos nossos dias.

Ptolomeu foi contemporâneo de um iniciado, Marcus Manilius que viveu no Sec. I d.C., e foi uma das suas obras que me motivou à escrita deste artigo. Numa das obras de Marcus Manilius, Astronomica, um livro que muitos entendem como se tratando de poemas, encontramos um profundo conhecimento imbuído que aqui partilho:

“Que o mundo tenha forjado pelo Fogo; que os astros, esses olhos da Natureza, devam a sua existência a uma chama viva distribuída por todos os corpos; formando no céu, o trovão horrível. Que a Água seja o princípio universal, e que, sem ela a matéria, sempre entorpecida, fica sem ação; e que ela tenha engendrado o fogo, pelo qual ela própria é vencida. Ou que enfim a terra, o fogo, o ar, e a água existam por si próprios; que estes quatro elementos sejam os membros da divindade; que eles tenham formado o universo, e que, criadores de tudo quando existe, não permitam o reconhecimento de tudo o que lhes seja anterior: Que tudo tenha disposto de maneira a que o frio combine com o quente, o seco com o húmido, os sólidos com os fluídos, que sempre em guerra e agindo sempre de acordo, por isso mesmo se encontrem intimamente unidos, capazes de criar, suficientemente poderosos para produzir tudo quanto subsiste.”

E desta forma simples se explica a origem de tudo o que existe, sendo este um texto profundo com muito mais do que se escreveu, existindo nas entrelinhas as palavras alquímicas de Deus. E continuamos a assistir a esta clara visão do Heliocentrismo, em pleno Sec. I d.C.

“A Terra (planeta) (…) é imóvel porque o universo se afasta dela em todos os sentidos com igual força” uma maravilhosa explicação da expansão do universo, com 2.000 anos.

“os corpos que a compõem, igualmente comprimidos por todos os lados, sustentam-se reciprocamente, e não lhe permitem deslocar-se (…) o Sol seguido por todos os astros do céu, não se dirigia com tanta constância para ocidente; a lua não conduziria o seu carro no espaço abaixo do nosso horizonte; a estrela da manhã (Vênus) não brilharia às primeiras horas do dia, depois de ter dado a sua luz do lado do ocidente sob o nome de estrela da tarde”, uma clara demonstração do Sol no centro do movimento astral.

E para salientar ainda mais o alto conhecimento das leis cósmicas, do céu e da terra, presentes neste livro que recomendo vivamente, finalizo: “A sua superfície não se alarga numa imensa planície: é esférica e eleva-se e descai em todos os pontos”.

Estudando os clássicos verificamos que o conhecimento Heliocêntrico é bastante anterior ao que está escrito nos livros de História, os gregos já detinham essa informação e a sua origem estará há pelo menos 5.000 anos…, mas isso seria tema para um livro e não apenas um breve artigo.

É por isso que na base do estudo devem estar os clássicos, pois milhares de anos depois permanecem atuais, assente em informação ancestral, de uma época em que o registo em papel não era possível. E é esse estudo que permite compreender que a Astrologia contemporânea é ainda incompleta e fraca. Será necessário resgatar as suas mais profundas origens para a compreender na totalidade. A informação científica que nos sustenta hoje já era reconhecida nos tempos antigos, mesmo anteriores aos egípcios.

O estudo de obras clássicas como Marcus Manilius é uma parte fundamental do processo de aprendizagem na Escola de Astrologia Hermética, fundamental para compreender a Astrologia atual, compreendendo que os antigos tinham maior conhecimento sobre as leis do Universo, do que aquele que dispomos atualmente. Por isso é que uma das artes liberais mais importante é a Filosofia, o amor à sabedoria.